Cartas de Nova York Desigual

sábado, 31 de dezembro de 2011
Como muitos brasileiros, cresci ouvindo que o nosso país era um dos mais desiguais do mundo. Disparidade social, lembro bem, era das expressões preferidas. A conversa era sempre a mesma: os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos.
Por isso, foi difícil acreditar na notícia que li outro dia: a cidade de Nova York é hoje mais desigual que o Brasil.
Que esta cidade é desigual não é novidade. Exemplo disso são os mendigos que dormem diariamente nas portas das luxuosas lojas de departamento da Quinta Avenida. Os últimos dados do censo mostraram que 58% da renda total da cidade está concentrada nas mãos dos 10% mais ricos. Até aí nenhuma surpresa.
Agora mais desigual que o Brasil? Foi o que concluiu o jornalista econômico Doug Henwood ao comparar um relatório recém-divulgado pela cidade com os dados do Banco Mundial sobre o Brasil.
Henwood observou que a renda dos 20% mais ricos da cidade é 64 vezes maior que a dos 20% mais pobres. No Brasil, esta proporção é de 17 vezes. E ainda: a renda dos 10% mais ricos de Nova York é 582 vezes maior que a dos 10% mais pobres. Entre os brasileiros, os 10% mais ricos têm renda (apenas?) 35 vezes maior que os 10% mais pobres.
Nova York tem a mais desigual das regiões metropolitanas do país. Aqui, 34% da renda total fica com os que fazem parte do 1% mais rico. E talvez por isso o movimento “Ocupem Wall Street” e o seu lema “Somos 99%” tenham começado aqui.
Mas a cidade não está sozinha. A má distribuição de renda e o consequente encolhimento da classe média, problemas considerados tipicamente latino-americanos, aumentaram em todo o país. A porcentagem da renda nacional detida pelo 1% mais rico subiu de 10% em 1980 para 24% em 2007. Seria a latinização dos Estados Unidos?
A porcentagem da renda nacional detida pelo 1% mais ricos subiu de 10% para 24% em 2007. Eles recebem 1/5 da renda total do país.
Claro que o Brasil e os outros países da América Latina ainda têm muito o que melhorar. Se por um lado houve avanços, o chamado coeficiente de Gini, que mede as disparidades, ainda aponta a região como a mais desigual do mundo. Mas como disse Engwood, no quesito desigualdade, a cidade de Nova York faz o Brasil parecer a Suécia.

Karina Vieira é jornalista e mora em Nova York há 10 anos. Escreve aqui sempre aos sábados. Fonte  Blog do Noblat

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